Marta faz história e incentiva Futebol Feminino

Marta marcou a história, mais uma vez, ao vencer seu sexto prêmio de melhor jogadora do mundo. Nenhum outro – nem mesmo Cristiano Ronaldo e Messi – conseguiu o que a camisa 10 do Orlando Pride, uma fora de série, fez. O recorde de conquistas do troféu vem do futebol feminino – e do Brasil. No entanto, a modalidade no país não pode viver na eterna expectativa de novas Martas surgirem. É preciso ir além.

Quando era criança, Marta queria somente jogar futebol, mas a maioria da família considerava isso “anormal”, nas palavras da própria jogadora. Muitos familiares não concordavam com o fato de a então menina jogar bola com os garotos na rua – e tentavam impedi-la de fazer o que mais gostava e o que já fazia melhor. Além disso, a craque encarou outras faces do preconceito, como ofensas e comentários maliciosos constantes ainda na infância.

Marta lembra com orgulho do sacrifício que fez e das barreiras que superou para seguir seu sonho. É louvável ver que a jogadora venceu – e como! – na vida. Mas o ponto é: não é justo que meninas precisem passar por cima da própria família, amigos e outras inúmeras barreiras para jogarem futebol.

Marta teve um força inenarrável e seguiu em frente. Mas quantas meninas ficaram pelo caminho pela falta de apoio? Quantas grandes jogadores o Brasil perdeu pela falta de incentivo à modalidade no país?

Quando digo “falta de incentivo”, falo sobre diversas esferas – esportivas ou não. A primeira é a familiar. Em boa parte das famílias brasileiras, a descoberta do sexo biológico do bebê já cria dois caminhos bastante distintos quando o assunto é prática de esporte, em especial o futebol. Não é raro ver pais esperando saber se têm um menino a caminho para comprar uma bola de futebol – ou uma boneca se for uma menina.

Não há problema algum em garotas – ou garotos – brincarem de boneca. A questão é isso ser colocado como único caminho possível para elas. O problema é o incentivo ao futebol ser ainda muito pequeno entre as meninas, deixando as amarras do gênero imoblizarem possíveis craques.

De acordo com dados divulgados pelo Ministério do Esporte em 2015, mulheres praticam 42% menos esporte que os homens. A prática esportiva mais popular no país é o futebol. Esta foi a resposta entre 66,2% dos homens e, pasmem, apenas 19,2% das mulheres. O incentivo precisa vir de berço, assim como acontece com os meninos.

Existem meninas que conseguem vencer as barreiras citadas acima, mas não podemos esquecer da dificuldade de seguir atuando no esporte. A base do futebol feminino é quase inexistente no Brasil. O número de equipes femininas no profissional é limitado, sem falar na estrutura e nas dificuldades de se profissionalizar e se manter como jogadora de futebol no país.

Precisamos parar de empurar a responsabilidade do futebol feminino para outros. Para a professora da UFRGS Silvana Goellner, doutora e especialista em gênero, esporte e futebol feminino, é preciso repensar toda a estrutura da modalidade no Brasil para que outras atletas de destaque possam surgir no futuro.

– A premiação da Marta merece nossa comemoração e também uma reflexão: como surgirão outras atletas expoentes do futebol diante das diferenças de incentivo, estrutura e valorização que existe em nosso país entre meninos e meninas? É mais que necessário discutir as relações de gênero no esporte e buscar estratégias de equidade para que as meninas e mulheres possam expressar seus talentos e viver o futebol como um direito e uma profissão. Se isso acontecer, muitas outras brasileiras poderão chegar a disputar um prêmio desta importancia – disse Silvana.

A representatividade da Marta é enorme. Esse sexto prêmio só trouxe mais relevância para tudo o que ela significa para o país. Milhares de mulheres e meninas se espelham na jogadora – dentro e fora dos gramados. Mas é preciso que essas garotas recebam a estrutura necessária para possam tentar ser como a 10 da Seleção não somente em força e perseverança, mas também em dribles, gols e títulos.

Segundo dados do Twitter, Marta foi a mais mencionada na rede globalmente, deixando Messi e Cristiano Ronaldo para trás (mais uma vez). É fantástico, claro. Mas precisamos parar de lembrar de Marta e do futebol feminino somente em momentos de vitória – como foi ontem para a jogadora.

O mais novo prêmio de Marta precisa ser um recado para que todos passem a assumir suas próprias responsabilidades quando o assunto é futebol feminino. O incentivo, seja assistindo aos jogos profissionais ou vibrando com uma menina jogando bola, pode vir de cada um de nós. Uma nova Marta não vai cair do céu. Deixem as garotas brincarem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *