Manter Tite é trunfo contra preguiça e imaturidade do “país do futebol”

Thiago Silva é um dos defensores mais brilhantes deste século no futebol mundial. Estreou na seleção brasileira há 10 anos. Teve três Copas do Mundo, quatro técnicos, 13 parceiros de zaga, inúmeras formas de jogar e quatro presidentes na CBF – três investigados por corrupção, um renunciou, outro está preso, ainda há um banido e o atual não tem capacidade de votar. Um quinto já foi eleito.

É possível que Thiago Silva encerre sua carreira sem um título mundial. Ele terá 38 anos na Copa do Qatar, em 2022, e é só um exemplo da geração afetada pelo desvio de conduta e por decisões erradas de que esteve no comando – contratar Dunga duas vezes e ter que mudar o técnico nas rotas das duas últimas Copas, entre outras.

Para não atrapalhar mais, não há outro primeiro passo que não seja manter Tite e, se possível, sua comissão técnica. Defender a permanência do técnico não significa defender todas as suas escolhas. O futebol brasileiro não suporta mais ser tão imaturo em decisões e análises.

Não há ninguém melhor do que Tite para, pelos próximos quatro anos e meio – um bônus entre tantos ônus da Copa no Qatar, que excepcionalmente será em dezembro –, aprimorar os muitos acertos de sua campanha, criar variações e soluções a partir dela, e cuidar para não repetir procedimentos que se mostraram equivocados.

O futebol brasileiro vive em seus clubes e, consequentemente, na Seleção, um processo paradoxal: adora falar em evolução, mas tem preguiça da etapa mais importante, a de construção. Não vê a hora de colher os louros das glórias, mas não é capaz de compreender o caminho para se chegar a elas.

Não faltam e nunca faltaram jogadores ao Brasil para disputar uma Copa como protagonista. A carência é de ideias criadas e lapidadas a partir de conceitos. Eles começaram a ser moldados por Tite. A derrota do Brasil para a Bélgica entra num capítulo que se repete, provavelmente, desde o primeiro Mundial: um grande time vencendo outro.

O espanhol Roberto Martínez estreou como técnico da Bélgica praticamente ao mesmo tempo em que Tite começou seu trabalho. Herdou um projeto muito mais consolidado, embora com um leque menor de jogadores. Criou uma estratégia inédita para enfrentar o Brasil, demonstração sem igual de respeito ao adversário. Não à camisa, mas ao que ele produz. E saiu de campo como vencedor estratégico por centímetros que mudam o jogo, na bola de Thiago Silva que deu um selinho no travessão e no braço de Fernandinho, posicionado no ângulo exato para o desvio rumo ao próprio gol.

Não se pode tirar o mérito da atuação belga nem deixar de reconhecer que sua ideia prevaleceu, principalmente porque seus craques, De Bruyne, Hazard e Lukaku, a executaram à perfeição. Jamais. Mas não se pode colocar todo o peso de uma análise sobre centímetros.

Ao contrário da fase anterior, da vitória num jogo de xadrez sobre o México, Tite demorou a reagir ao posicionamento do ataque belga: Hazard em cima de Fagner, Lukaku às costas de Marcelo, De Bruyne livre nos espaços criados pelo ataque brasileiro, e seus incríveis zagueiros Thiago Silva e Miranda sobrando, sem ter quem marcar, o tempo todo.

O 4-4-2 que já havia se mostrado eficiente nas oitavas de final também pareceu ser mais indicado nas quartas, mas só foi adotado no segundo tempo, bem como a perseguição individual de Miranda a Lukaku – que duelo magnífico!

Tite começou todos os seus jogos no mesmo sistema, o 4-1-4-1, e insistiu em peças que não funcionaram bem em suas funções primárias ao longo de todo o torneio, casos de Paulinho e Gabriel Jesus. Fred, reserva para o meio-campo, passou a Copa inteira com reforço de fisioterapia e sem condições ideais de jogo. Sua manutenção no grupo se mostrou um erro.

Mas é preciso tentar entender o porquê dessas escolhas táticas e técnicas.

Essa comissão técnica estreou sob pressão, com o Brasil fora da zona de classificação à Copa e cercado de dúvidas sobre a qualidade de seus jogadores. Sua primeira cartada deu mais certo do que qualquer um poderia prever: no 4-1-4-1, com Paulinho e Gabriel Jesus, entre outros, protagonistas.

Apenas oito jogos depois, a equipe saiu da sexta colocação para se tornar a primeira a garantir vaga no Mundial. E naquele momento, em março de 2017, Tite precisou tomar, talvez, a decisão crucial: aproveitar os jogos que restavam para fortalecer o que havia sido tão bem-sucedido ou para encontrar novas opções e variações?

Ele escolheu a primeira opção. Com menos de um ano de trabalho, ela parecia ser mesmo a mais indicada. Hoje, possivelmente o técnico tomaria outro caminho. Seria ótimo ter uma bola de cristal que mostrasse os efeitos de uma decisão antes dela ser tomada.

O Brasil poderia ter vencido a Bélgica. Na trave de Thiago Silva, nos chutes de Renato Augusto, Coutinho e Neymar, ou se o árbitro tivesse consultado o VAR quando Gabriel Jesus caiu na área – e aqui não fica um protesto porque não há convicção de pênalti, mas a estranheza por como a Seleção foi ignorada pela tecnologia em toda a Copa é inevitável.

Em 2014, antes de ser campeã, a Alemanha precisou da prorrogação para vencer a Argélia. Em 2010, a campanha do único título da história da Espanha iniciou com uma derrota para a Suíça. A Copa do Mundo é única e é cada vez mais raro brilhar nos sete jogos. Mas é mais provável que detalhes e centímetros façam diferença a favor de quem tenha ideias e conceitos sólidos.

Hoje, a ideia da seleção brasileira passa pela permanência de Tite.

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