Juro baixo e mudanças no BNDES abrem espaço para mercado de crédito privado no país

Letreiro do BNDES no Rio de Janeiro — Foto: Nacho Doce/Reuters

A combinação de juros baixos e mudança na política para concessão de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) alterou a dinâmica de captação de recursos no país. Atualmente, com o custo mais alto para tomar empréstimos no banco público e o rendimento mais baixo dos títulos do Tesouro, o mercado de renda fixa privada vem crescendo.

Essa mudança pode ser vista no volume captado pelas empresas por meio das debêntures (papéis de dívida de empresas). No ano passado, elas arrecadaram um recorde de R$ 153,7 bilhões. Foram 335 emissões, 25% delas incentivadas. Só no primeiro semestre de 2019, o volume captado foi de R$ 84,6 bilhões, em 133 operações, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Se o avanço do crédito privado se consolidar ao longo dos anos, o Brasil vai lidar com uma importante transformação estrutural. Por tempos, o crédito público foi o principal financiador de grandes companhias brasileiras. Na sexta-feira (19), o novo presidente do BNDES, Gustavo Montezano, reforçou que o banco deve reduzir a concessão de empréstimos.

“Em anos passados, o aumento de recursos emprestados pelo BNDES e o avanço da taxa de juros praticamente inibiram o desenvolvimento do mercado de capitais e, particularmente, do mercado de dívida corporativa”, afirma o diretor do Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec), Carlos Alberto Rocca.

O que explica o aumento do crédito privado:

  • O BNDES passou a cobrar mais caro para emprestar, o que obrigou as empresas a buscarem novas fontes de financiamento;
  • A queda da taxa básica de juros nos últimos anos e a expectativa de novos cortes têm levado a investidores a ampliarem o leque de apostas. Hoje, os papéis do Tesouro já não rendem tanto quanto no passado, abrindo espaço para novos produtos.

De 2016 até abril do ano passado, a taxa básica de juros foi reduzida pelo Banco Central de 14,25% ao ano para os atuais 6,25% ao ano, o nível mais baixo da história. A Selic funciona como uma espécie de guia para todo o mercado, inclusive para as empresas. Quando ela cai, é um indício de que o custo para tomar crédito pode ficar mais baixo.

Ao mesmo tempo, o BNDES passou a cobrar mais caro pelos seus empréstimos. O banco de fomento instituiu em janeiro de 2018 uma nova taxa, mais próxima das praticadas por outros bancos e menos subsidiada, a Taxa de Longo Prazo (TLP), que substituiu a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP).

Hoje, não à toa, em alguns casos, é mais barato para as grandes empresas captarem por meio do crédito privado. Um levantamento do Cemec mostra, por exemplo, que o juro médio cobrado pelo BNDES está em 9,91% ao ano. Já é um valor acima do das debêntures (8,26%) e pouco inferior ao oferecido pelos bancos para as grandes empresas, a chamada Taxa Preferencial Brasileira (10,8%).

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