Junho de 2013: enquanto manifestantes iam às ruas, Cabral comprava joias com propina e recebia ‘caixinha’ milionária

Uma noite chuvosa como a da segunda-feira 3 de junho de 2013, com termômetros marcando 20°C, não levava tanta gente às ruas cariocas havia décadas. O lema “Não são só vinte centavos” misturava a revolta contra a qualidade do transporte público e a luta contra corrupção. Era a primeira de uma onda de manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus no Rio.

Os manifestantes não poderiam prever, mas o então governador Sérgio Cabral (MDB) – até então com a popularidade em dia – embolsava R$ 1,4 milhão em propina naquele mesmo dia, segundo investigadores. O pagamento fora feito justamente pelos empresários do setor rodoviário, também alvos do protesto, ao encarecer a passagem prometendo a refrigeração total da frota – promessa que até hoje não se concretizou.

Cabral se desgastaria até o fim daquele mês, tornando-se uma das autoridades mais atingidas. Em primeiro de julho, pesquisa do DataFolha refletia a queda de popularidade: a aprovação despencava de 55% para 25%.

Atualmente, ele está preso na Lava Jato, condenado a mais de 100 anos de prisão, e nega ter recebido propina — embora admita ter movimentado R$ 500 milhões de caixa 2. Deste valor, assumiu em audiência ao juiz Marcelo Bretas ter feito uso pessoal de R$ 20 milhões.

Algumas das regalias, como atestam o Ministério Público do Estado do Rio e a Lava Jato fluminense, continuaram durante as manifestações. O presente de casamento da primeira-dama Adriana Ancelmo, um brinco em ouro amarelo, é um exemplo: foi pago horas antes de outro grande protesto.

As viagens de helicóptero a Mangaratiba, para a mansão na praia onde costumavam ir às sextas-feiras, também não foram interrompidas. Muitas vezes, de acordo com o Ministério Público, utilizavam mais de uma aeronave, contratadas pelo Governo do Rio.

Em junho, de acordo com a investigação, a família não deixou de viajar para lá um único fim de semana semana, levando até amigos e empregados.

1º de junho: aumento da tarifa

O decreto assinado pelo prefeito Eduardo Paes (à época no MDB, hoje no DEM), em 29 do mês anterior, passa a valer: a tarifa sobe de R$ 2,75 para R$ 2,95. Outras dez capitais também reajustam o preço da passagem de ônibus. Até 2016, a Prefeitura sinaliza com a possibilidade de refrigerar toda a frota – acordo recente prevê a climatização total só em 2020.

2 de junho: Família em Mangaratiba

A casa de veraneio no litoral fluminense era roteiro frequente de viagens. Cabral não ia só. A primeira-dama, filhos, babás e amigos também viajavam. Sempre de helicóptero, causando um congestionamento de aeronaves no condomínio Portobelo.

Um dos pilotos não escondeu seu susto, num domingo como o de 2 de junho, ao avistar três helicópteros ali parados. Todos a serviço de Cabral, como relatou ao promotor Claudio Calo Souza, que acusou Cabral de peculato por uso de dinheiro público para fins pessoais.

“O declarante esclarece que, em inúmeras oportunidades, principalmente na rota Mangaratiba x Rio de Janeiro, nos finais de semana, principalmente no domingo, no ano de 2013, presenciou três helicópteros do Estado do Rio no Condomínio Portobelo, em Mangaratiba, onde o ex-governador possui casa de veraneio (…) enquanto duas aeronaves eram usadas para transporte (…) de empregados domésticos, babás.”

Naquele dia 2, como era praxe, uma aeronave desembarcou com a família mais cedo. Mais tarde, o governador chegava em seu helicóptero de luxo Augusta, considerado uma “Ferrari” dos céus por uma das dezenas de pilotos que estiveram a seu dispor.

Um deles diz que esta aeronave era “a melhor dentre as sete (que o governador usava) e consequentemente não transportava empregados”. Certa vez, recorda-se ele, que foi inspetor da Polícia Civil, dois helicópteros sobrevoaram juntos. Num deles, o ex-governador estava só.

3 de junho: empresários de ônibus pagam Cabral

A “caixinha da Fetranspor”, que abastecia autoridades para atender os interesses dos empresários de ônibus nos Palácios Tiradentes e Guanabara, vigorou por décadas. A revelação é do Ministério Público Federal, que também aponta Sérgio Cabral como um dos principais beneficiados. Ele nega.

A mesada correspondente àquele mês teria sido paga justamente no dia do primeiro grande protesto carioca contra o aumento da tarifa, 3 de junho: R$ 1,4 milhão. Durante todo o ano, seriam R$ 17 milhões em propina do setor rodoviário ao governador. Carlos Miranda, seu assessor, fez o recolhimento numa conta exclusiva.

5 de junho: presente de casamento

Foi o mesmo Carlos Miranda que, apenas dois dias depois, esteve na joalheria H Stern, em Ipanema, para pagar por uma das centenas de provas de amor do ex-governador para a primeira dama Adriana Ancelmo, de acordo com a investigação.

Meses antes, ela se apaixonara por um brinco de ouro amarelo de 18 quilates com um brilhante solitário. Custava R$ 1,8 milhão. Outra joia que já havia sido comprada pelo casal foi oferecida para abater a dívida, enquanto o restante o ex-governador pagou como presente de casamento. É o que narra a diretora da joalheria Maria Luiza Trotta.

6 a 13 de junho: atos param trânsito; autoridades sobrevoam

A revolta popular tomava forma, alheia aos ainda desconhecidos gastos do casal. No dia seguinte à compra da joia, o Centro da cidade voltou a ser fechado. Desta vez, dia 6, foi interditada a Avenida Presidente Vargas.

Balas de borracha e bombas de gás de lacrimogêneo atingiram manifestantes e ao menos dois deles foram parar em hospitais. Os ativistas acusavam policiais de truculência.

Um dia depois, numa sexta-feira (7), a família Cabral estava de volta a Mangaratiba para relaxar durante o final de semana, como fariam todas as sextas de junho. O expediente acabara cedo. Às 16h56, o helicóptero já rumava para a mansão da família.

Na segunda-feira (10), bombas de efeito moral também dispersaram as milhares de pessoas que se concentravam contra o aumento da passagem. Trinta e quatro foram detidos. Em resposta ao trânsito caótico, um ativista segurava um cartaz: “Desculpe o trânsito. Estamos lutando pelos seus direitos”.

O ex-governador, no entanto, não era incomodado pelo congestionamento. Somente naquela segunda, solicitou quatro viagens em helicópteros oficiais — nem sempre utilizados exclusivamente para o trabalho, como denunciou o MP.

Até mesmo um de seus secretários pediu o helicóptero para fugir do trânsito causado pelo protesto: de aeronave, desembarcou em seu condomínio de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade.

No dia 13, a Assembleia Legislativa é pichada num dos seus pilares. “Fora Cabral”, diz a mensagem. Naquele mesmo dia, ele fala sobre os protestos. Atribui a revolta “um clima de confusão e de baderna” de jovens que não têm “espírito público”, nas palavras dele.

14 de junho: anel de ouro de R$ 1,1 milhão

As marcas dos protestos ainda eram visíveis no Centro, onde alguns ativistas se esforçavam para limpar pichações desde cedo. Longe dali, na Zona Sul, o operador de Sérgio Cabral estava de volta à joalheria H. Stern.

Desta vez, um anel de ouro amarelo de 18 quilates com um brilhante solitário era o desejo da então primeira dama do estado. Por ele, foram pagos R$ 1,1 milhão em euros, reais e até em cheque. Sempre sem nota fiscal. O MPF diz que era uma forma de facilitar a lavagem de dinheiro.

17 de junho: 100 mil nas ruas

O Centro do Rio foi tomado de gente no dia 17. De acordo com estimativas do Coppe-UFRJ, 100 mil dominaram as ruas do Centro. Manifestantes que lá estavam juravam que havia mais do que isso. Vários deles gritavam “Cabral é ditador”.

Com poucos policiais, a Assembleia acabou virando refúgio dos militares. Manifestantes arremessaram bombas e coquetéis molotov. Em minoria, os agentes tiveram dificuldade para reagir. Bombas voltaram a ser arremessadas. Paulo Melo, então presidente da Alerj e hoje também preso, classificou o ato como “terrorismo”.

Sete pessoas foram baleadas com arma de fogo. Dez foram presos.

18 de junho: Cabral se retrata: ‘Isso é bonito’

Depois de criticar a falta de “espírito público” dos protestos, o então governador muda o discurso. Em entrevista ao RJTV, vê pontos positivos. Àquela altura, o expediente no Palácio Guanabara tinha se estendido. O Diário de Bordo mostra que as viagens de volta para casa foram ficando cada vez mais atrasadas: 21h, 22h30 e até meia-noite. Às vezes para o Leblon, às vezes para o litoral da Costa Verde fluminense.

Ele também falou sobre o fato de ser alvo constante dos manifestantes.

“Eu acho absolutamente natural e democrático (ser criticado). Uma pessoa que disputa um cargo eletivo num processo democrático tem que ter consciência e tolerância necessária para receber críticas e se aperfeiçoar, ouvindo as críticas procedentes. (Estou) sempre (disposto a abrir um canal para negociação). Viva a democracia.”

19 de junho: prefeitura suspende aumento

Eduardo Paes anuncia que a passagem não vai mais aumentar. Aliás, a tarifa que subira para R$ 2,95 é mantida — mas a própria Prefeitura do Rio passa a pagar os R$ 0,20 acrescidos ao valor da tarifa. O impacto anual aos cofres públicos chega a R$ 200 milhões.

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