Famílias desesperadas passam horas em busca de oxigênio em mercado paralelo no Peru

A pandemia do novo coronavírus revelou que os hospitais públicos peruanos não possuem armazenamento suficiente de um produto básico para a vida: oxigênio.

A escassez do insumo mostra que, apesar de anos seguidos de crescimento econômico e queda nos seus índices de pobreza, o país andino vizinho ao Brasil não investiu no seu setor de saúde. Com o incremento de casos de covid-19, os familiares dos pacientes da doença passaram a ter que encarar horas nas filas nas ruas da capital Lima, de Arequipa, terra natal do escritor Mario Vargas Llosa, e de Huancayo, na região de montanhas, entre outros lugares, para conseguir o elemento químico vital.

Desde que o número de casos subiu no território nacional, há pelo menos dois meses, os familiares passam horas nas filas, muitas vezes no mercado paralelo, para abastecer os tubos pesados, que têm mais de um metro de altura. Dali, das filas, saem para casa ou para a porta dos hospitais, onde estão seus parentes doentes à espera de serem socorridos. Existem casos em que eles levam os tubos diretamente aos hospitais, onde o familiar está internado e não há o insumo.Familiares de pacientes com Covid-19 fazem fila para recarregar cilindros de oxigênio nos arredores de Arqeuipa, no Peru, em 23 de julho  — Foto: Diego Ramos/AFP

A escassez do produto provocou a disparada nos preços. À imprensa local, os familiares dos que sofrem de covid-19 contaram que chegaram a vender objetos pessoais para pagar, no mês passado, 4500 soles, quase US$ 1.300, aos vendedores paralelos de oxigênio – e sem saber a procedência da mercadoria.

Com mapas das cidades, as TVs locais informam às suas audiências os lugares onde o preço é mantido inalterado, em até 15 soles, apesar da corrida provocada pela pandemia. “Estou há três horas na fila, mas minha mãe precisa do oxigênio para poder sobreviver”, disse um rapaz à TV Peru.

Paciente com Covid-19 aguarda atendimento fora de hospital em Arequipa, no Peru, em 23 de julho — Foto: Diego Ramos/AFP
Há poucos dias, o empresário Mario Romero, que foi batizado de “Ángel oxígeno”, porque vendia o insumo a preços baixos, faleceu de Covid-19 e provocou comoção no país. “Descanse em paz, anjo do oxigênio”, lamentaram os peruanos nas redes sociais.

A situação de escassez tem levado religiosos a fazerem campanhas para a instalação urgente de fábricas de oxigênio no país, como informa, por exemplo, a página da Caritas de Huancayo. O ministro da Saúde, Víctor Zamora, disse que, em tempos normais, o consumo de oxigênio era equivalente a 60 toneladas por dia. Com a pandemia, isso foi multiplicado por cinco, chegando a 290 toneladas diárias.

Flagelo dos indígenas

Mas além da falta de oxigênio, o país enfrenta, nesta pandemia, dificuldades similares aos de outros países com povos indígenas. No caso peruano, os indígenas registraram os primeiros casos de coronavírus, em abril e maio passado, com vítimas fatais, despertando apelos dos líderes dos povos originários locais por maior atenção médica.

Os peruanos sofrem ainda com outros problemas, como escassez de profissionais de saúde treinados para o uso adequado dos equipamentos para tratamento do coronavírus. Além disso, doentes de covid-19 dormem em barracas de acampamento, no frio, na portaria de hospitais de Arequipa, a segunda maior cidade do país, ou fazem filas de carros, com seus próprios tubos de oxigênio, esperando para serem atendidos.

É o que ocorre, por exemplo, no Hospital Honorio Delgado, no local. Segundo agências internacionais de notícias, em Arequipa o ‘botellón’ (tubo) de oxigênio custa em torno dos 1.600 dólares – caro para muita gente da cidade que é rica em mineração.

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