Fã de Neymar e torcedor do Fluminense: Conheça João Pedro, jovem morto no Salgueiro que sonhava em ser advogado

“Mãe, fica calma! O meu tio já está chegando, tá tendo muito tiro por aqui”. Foi com essas palavras, ditas ao celular, que o adolescente João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, tentou tranquilizar a mãe, a professora Rafaela Coutinho, momentos antes de ser morto com um tiro de fuzil, durante uma operação conjunta entre Polícia Federal e a Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, na última segunda-feira (18), no bairro Itaoca, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo.

Fã incondicional do jogador Neymar e um apaixonado pelo Fluminense, o jovem sonhava em ser advogado. Filho de uma família humilde, João Pedro era nascido e criado numa comunidade marcada pela ‘guerra’ entre traficantes e policiais, com inúmeros mortos dos dois lados, mas também muitas vítimas inocentes como ele.

E com o apoio dos pais, João Pedro seguia um rumo diferente de muitos garotos de sua idade moradores do Salgueiro. Desde a sua infância, o jovem carregava o sorriso largo no rosto, era bastante apegado à fé e participava do conjunto que cantava músicas religiosas em sua igreja. Torcedor fanático do Tricolor das Laranjeiras, era apaixonado pelo futebol internacional, principalmente em assistir jogos do craque Neymar, o seu principal ídolo no esporte. 

“O João sempre foi uma criança alegre. Gostava de brincar com carrinhos e videogames, isso tudo dentro casa ou no quintal. Ele tinha o sonho de terminar a escola e entrar em uma faculdade para realizar o grande sonho de sua vida, que era se tornar um advogado, mas infelizmente isso foi tirado das mãos dele. A irmã dele, de 4 anos, quando vê as fotos dele em reportagens, fica pensativa e quando perguntamos o que ela está sentindo, fala que tá pensando no irmão. É uma dor muito grande, muito mesmo, mas temos certeza de que com a fé em Deus, a justiça será feita”, disse a mãe do jovem. 

Rafaela, professora bastante conhecida de São Gonçalo, contou que a vida dela começou a mudar por volta das 14h30 da última segunda-feira (18), quando ouviu os primeiros indícios de confronto entre a Polícia e os traficantes da localidade. Como João estava na casa da tia – algo rotineiro – na Rua Expedicionário Geraldo Rosa, ela decidiu ligar para o filho e ouviu as últimas palavras do garoto, que estava assustado com o barulho de tiros e o sobrevôo de helicópteros.

“Parecia que eu estava sentindo o que ia acontecer. Depois que descobri o que tinha ocorrido, e que o meu filho havia sido baleado e levado sem ninguém da família para um hospital, fiquei sem reação. Desde então, começou o desespero. Fomos em diversos hospitais, delegacias e ninguém falava nada, parecia que estavam escondendo algo da gente e as horas foram passando e nada, nada, nada.. Não sabia o que sentir, o meu coração já estava despedaçado, mas eu tinha fé que eu iria encontrar o meu filho com vida, mas isso não ocorreu, acabaram com a vida do meu filho dessa forma tão cruel”, desabafou a mãe.

Ao receber a notícia da perda do seu filho – mais de 16 horas após ele ter sido baleado, em meio ao luto veio o desejo por justiça. Questionada sobre o que falaria para os policiais envolvidos na operação, se tivesse a chance de encontrar com eles, Rafaela revelou que a uma grande vitória durante os dias seguintes a morte do filho foi não terem vinculado o nome dele ao tráfico, confirmando a sua inocência e pureza. 

“Que a justiça seja feita, pois eu acredito que esses policiais têm famílias e filhos. Como estão conseguindo dormir sabendo que tiraram a vida de um inocente? Sei que o João Pedro não foi primeiro e nem será o último, mas a justiça de Deus não vai falhar. O Estado deve um pedido de perdão à minha família e reconhecer que foi um erro, pois eles não atingiram o objetivo da operação. Simplesmente destruíram uma família com o despreparo dos policiais envolvidos”, concluiu. 

Investigação – A Polícia Civil divulgou que o disparo que atingiu a barriga de João Pedro partiu de uma arma de calibre 556, do mesmo tipo utilizado por um dos policiais envolvidos na ação que terminou com a morte do jovem. A expectativa é de que o resultado do confronto balístico com as armas dos policiais – dois fuzis calibre 7.62 e um 5.56 – saia no inicio da próxima semana, passo principal para a elucidação do caso. 

Na tarde da última sexta-feira (22), três policiais da Core, envolvidos na operação, foram afastados das operações de rua e seguirão realizando funções administrativas. 

“A Corregedoria da Polícia Civil instaurou sindicância administrativa disciplinar para apurar a conduta dos policiais civis que participaram da ação”, informou a Polícia Civil.

A respeito do socorro da vítima e do transporte para a base do Grupamento de Operações Aéreas do Corpo de Bombeiros (GOA/CBMERJ) na Lagoa, na Zona Sul do Rio de Janeiro, o comandante da aeronave relevou, durante depoimento, que diversos procedimentos tiveram que ser analisados na decisão do local para onde o jovem seria levado e que o fato de levar-lo para a Lagoa foi uma “decisão de momento”. 

A Polícia ainda apura porque João Pedro não foi levado para o Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), no Colubandê, em São Gonçalo, e especializado em atendimento de vítimas baleadas na região.

Operação visava encontrar o traficante Faustão – A operação, que terminou na morte de João Pedro, contou com três helicópteros, quatro blindados do Comando de Operações Táticas (COT) da Polícia Federal, lanchas e mais de 50 policiais – civis e federais – e tinha como objetivo encontrar o traficante Ricardo Severo, o Faustão, apontado como uma das lideranças do Comando Vermelho (CV) em São Gonçalo

De acordo com a polícia, durante a operação, os policiais viram três criminosos fugindo e pulando o muro para o interior de uma residência – onde João Pedro estava – e começaram uma busca pelos criminosos.

Na ação, os policiais afirmaram que os criminosos realizaram diversos disparos contra eles e iniciou-se uma troca de tiros. Logo depois, os policiais teriam encontrado o garoto caído no chão e o socorreram de helicóptero para a Lagoa, na Zona Sul do Rio, mas a criança não resistiu aos ferimentos.

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