Em entrevista Pezão afirma: ‘Para Cabral, a cereja do bolo sou eu’

Entrevista com ex-governador Luiz Fernando Pezão, em sua casa em Piraí. Foto Ana Branco / Agencia O Globo Foto: Ana Branco / Agência O GloboCercado de cuidados para evitar expor sua tornozeleira eletrônica, o ex-governador Luiz Fernando Pezão, solto no último dia 11 de dezembro da Unidade Prisional da Polícia Militar, em Niterói, falou ao GLOBO sobre sua decepção e frustração com o ex-aliado Sérgio Cabral – já na 13ª condenação pelo megaesquema de corrupção desbaratado pela Lava-Jato. “Ele decidiu se voltar pra mim na 13ª condenação. Fiquei indignado”, disse Pezão, em sua casa em Piraí.

Ele estava escoltado pela mulher, Maria Lucia, que não permitia fotos da piscina ou de imagens espalhadas pela casa – como o famoso “São Pidão”, que levava em suas incursões a Brasília como governador para pedir verbas ao Rio e que agora está na cabeceira da cama.

Seu pedido agora é outro: que não seja condenado pelo juiz Marcelo Bretas no processo que o levou à cadeia. Não consegue explicar como conviveu por uma década, parte dela como chefe, com Hudson Braga, condenado já em segunda instância no mesmo esquema engendrado por Cabral, sem saber da corrupção que cercava as ações do então governador.

Mas afirma que chegou a alertar o então governador, quando era vice, do excesso de ostentação que nutria em sua vida pessoal. Garante que vive da aposentadoria da mulher. E que paga uma quantia de R$ 4 mil reais a seu advogado, preço bem abaixo do mercado. E que o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo advoga de graça para ele em Brasília.

Confira a íntegra da entrevista:

É crível imaginar que um esquema de corrupção como o do ex-governador Sérgio Cabral ocorresse sem o senhor saber?

Eu, o Ministério Público Estadual e o Federal, o Tribunal de Contas do Estado, o Tribunal de Contas da União, a Controladoria Geral da União… Ninguém nunca falou nada. Eu sempre alertava alguma coisa quando ouvia falar.   

E o senhor acreditava?

O que eu ia fazer? Eu sou do MP ou do TCE? Ele tem a vida dele e eu, a minha. Quinze dias antes da prisão dele, fui na sua casa em Mangaratiba e falei: “Sérgio, tem a lei de repatriação aí, as pessoas estão falando (de você). Pega o dinheiro se você tiver no exterior”.   

Então, o senhor já imaginava que não tinha algo certo?

Todo mundo falava que o Sérgio ia ser preso, que não sei quem ia ser preso, que eu ia ser preso… Ele falou: “Pezão, você vem aqui no sábado, eu estou aqui na minha casa e você vem ser piloto de trem fantasma e falar isso para mim? Estou aqui numa boa, já saí há dois anos do governo, não tem nada”. Fiquei lá, comemos, bebemos e parei de falar.

“Quinze dias antes da prisão dele, fui na sua casa em Mangaratiba e falei: “Pega o dinheiro se você tiver no exterior”   ”

LUIZ FERNANDO PEZÃO
Em entrevista ao GLOBO

O senhor não percebia que ele ostentava?

Via, mas, de vez em quando, eu perguntava. Ele falava que era tudo o escritório da Adriana, que dava cobertura a tudo dele. Falava que ela teve todos os clientes do mundo e dava sustentação  para ele. Agora, eu vou entrar na relação dos dois e ficar perguntando: “e esse dinheiro e esse carro aqui?” Sergio sempre foi de gostar do status. Ele ficava avacalhando o meu jeito. 

Como o senhor se sente ao ver subordinados seus e muito ligados ao senhor, como o ex-secretário Hudson Braga, condenados?

Hudson trabalhava bastante, tudo que eu demandava, ele entregava. Ele confessou que existiram “sobras de campanha”. Nunca soube de nada disso. Foi uma dificuldade danada a minha campanha para governador.  

Como não ver nenhum indício sendo ele seu subordinado próximo?

Ele falou no depoimento que nunca falou comigo disso.

O senhor era o secretário de Obras quando já havia começado o esquema, segundo a Justiça já reconheceu…

Minha responsabilidade era entregar obras e entregamos todas. Não sabia as conversas que o Sérgio tinha. Ele falava disso nos depoimentos: “o Pezão não participava”. Agora, está dizendo que eu criei essas coisas desde o primeiro momento. Então, o que vale? A palavra dele antes ou agora?

“O Ricardo Saud da JBS chegou a dizer em depoimento que tinha vergonha de conversar comigo sobre propina”

Como o senhor encara as suas citações nas delações premiadas?

Ninguém falou de mim, só o grupo do Sérgio (Cabral). O Sérgio mesmo, só depois do 14º depoimento. Antes, ele me chamava de homem probo, honesto e correto. Depois da 13ª condenação, ele começou a se juntar com o Carlos Miranda (operador de Cabral), aquele que o Sérgio chamou de amarra-cachorro dele, que disse que não valia nada. O que posso fazer? O Bezerra (Luiz Carlos Bezerra, outro operador do ex-governador) disse que nunca entregou dinheiro para mim. O Ricardo Saud da JBS chegou a dizer em depoimento que tinha vergonha de conversar comigo sobre propina. O Renato Pereira (marqueteiro das campanhas de Cabral) fala na delação dele que, quando eu entro como governador, acabaram todos os repasses que existiam por fora.  

E aquele abraço que o senhor disse que gostaria de dar no Cabral no passado?

Agora já passou. Isso era em 2018. Estamos em 2020. 

Qual é seu sentimento hoje com relação ao ex-governador?


Acho muito triste. Não vou negar o que ele me proporcionou, eu pude trabalhar e fazer o que, de fato, gosto de fazer. Poucos políticos andaram o que eu andei dentro de comunidades. Depois, recebi gente de Manguinhos, Alemão e Rocinha. Todos vêm aqui para me ver e agradecer.

Isso era antes. E agora, qual é seu sentimento por Cabral?

Tem hora que fico triste, indignado, decepcionado, mas assim, graças a Deus eu não guardo ódio, rancor e raiva de ninguém. Sou desprovido disso, graças a Deus. Vejo que ele está tentando se defender. Só resta a cereja do bolo que sou eu. Um exemplo: o Sérgio admitiu que recebeu R$ 50 milhões da Fetranspor e depois começou a dizer como distribuiu o dinheiro. Até que na hora de somar, o (Marcelo) Bretas o alertou: “Sérgio, isso aqui já está em R$ 54 milhões”.

“Me acordam violentamente. Tinha ido dormir 2h da madrugada e às 6h me acordaram com um aparato, uma coisa violentíssima, cheio de mulher com pistola e homens de fuzis.”

LUIZ FERNANDO PEZÃO
Em entrevista ao GLOBO

O senhor acha, então, que as delações estão combinadas?

Não tenho dúvida nenhuma. Tenho certeza.  

“Um dia preso acaba com a vida da gente. Às 20h, você vai para a cela e só abre de novo 9h da manhã.”

Como o senhor se sentiu ao ser preso?

Me acordam violentamente. Tinha ido dormir 2h da madrugada e às 6h me acordaram com um aparato, uma coisa violentíssima, cheio de mulher com pistola e homens de fuzis. Entram no quarto, não sei se dez, 12 pessoas, perguntando: “cadê o cofre? Cadê o cofre?”. Empurraram vestido para um lado, ternos para o outro. Para justificar minha prisão, me levaram para a PF.

Como era a rotina na prisão?

Tive uma solidariedade total lá dentro, mas um dia preso acaba com a vida da gente. Às 20h, você vai para a cela e só abre de novo 9h da manhã. Tem geladeira no rancho, dividido pelas pessoas. Aí você pode deixar comida lá. Uma geladeira para 12. Tinha banheiro na cela. São 20 celas de oficiais. Todo mundo que é oficial fica sozinho. De dia, não podia trancar a porta, toda hora tinha batida.  (A mulher de Pezão, Maria Lucia,  acrescenta: “Eu chegava lá e limpava tudo, levava bucha e detergente”)

Como o senhor passava o tempo?

Caminhava de manhã e à tarde, jogava bola, lia jornal, li livros. Li muitos livros espíritas. Lá, tinha um grupo espírita que ia fazer palestra aos domingos, de 17h às 19h. Eu assistia muito.  

Algum político foi visitá-lo na prisão?

Não pode, eles não deixaram. Muita gente queria me ver.   

E ninguém usou a prerrogativa de parlamentar para visitá-lo? 

Não deixam.  

Mandavam mensagens para o senhor?

Tinha muita solidariedade, muitos políticos mandavam mensagens. O Wellington Dias (governador do Piauí, do PT) tentou duas vezes ir lá e não deixaram. O Fernando Pimentel (governador de Minas Gerais) e o André Ceciliano (presidente da Alerj) também.

E a Dilma, com quem o senhor tinha grande amizade?

Quem me mandava (recado dela) era meu advogado em Brasília, que trabalha gratuitamente para mim e que é um grande amigo: o José Eduardo Cardozo (ex-ministro da Justiça). Estou para ligar para ela (Dilma), mas até agora não liguei. O presidente Lula me ligou no final do ano, o Rodrigo Maia (presidente da Câmara) foi uma pessoa muito solidária. Muitos deputados federais e estaduais de muitos estados me ligaram. 

E na sua cidade, como foi quando retornou e saiu às ruas?

Foi uma comoção na cidade. Saí na semana passada e mostraram vídeo pegando cerveja no bar do Rei do Torresmo. Aqui mesmo durante a minha prisão, faziam culto na porta da minha casa.

Qual é sua avaliação da Lava-Jato?

Não sou contra, não. Vejo a Lava-Jato como um avanço. Acho que não precisava liquidar as empresas como foram liquidadas. Podia ir na pessoa física do dono como é nos Estados Unidos e em outros país. Acho que liquidamos a engenharia nacional.


E em relação aos políticos?

Cada um que pague pelos seus erros. Acho que quem errou que pague. Agora, jogou todo mundo na mesma vala comum. No Rio foi mais forte ainda porque todo mundo foi considerado igual quando não é. 

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