Crise da água inspira fantasias e letras de sambas de blocos do Rio

Folionas brincam com a situação da água da Cedae no bloco Chame Gente — Foto: Alba Valéria Mendonça/G1A crise na qualidade da água vinda da Estação de Tratamento do Guandu, da Cedae, que chega a nove milhões de moradores do Rio e da Região Metropolitana, está dando o tom ao carnaval deste ano. As referências fazem parte de fantasias e sambas e já começaram a ganhar as ruas da capital fluminense.

Circulando pela região da Saara, no Centro, quem observa as lojas com mais atenção já viu referências aos problemas com a água.

A vendedora Gabrielle Rodrigues, da Pamp Festas, na Rua Senhor dos Passos, conta que o carnaval deste ano está sendo marcado principalmente pela venda de acessórios. A exceção é a fantasia de água, reposta no estoque mais de uma vez.

“Os clientes adoram. É uma fantasia diferente e que fica linda”, contou Gabrielle.

Adaptações são permitidas. “Em vez do azul, eles colocam uma cor diferente, para dizer que a água está ruim. Um preto, um verde ou um amarelo escuro”, explicou a vendedora.

Para quem não encontra a fantasia pronta, é possível compor com peças encontradas nas lojas. Essa é a ideia da vendedora Jaci Pimenta, da Festas 234, na Rua da Alfândega, que colocou até uma representação do carvão ativado usado pelos técnicos da Cedae para retirar o gosto da geosmina da água.

“Aqui a gente pode dizer que é o carvão sobre a água contaminada”, brinca Jaci, apontando para a saia preta sobre o maiô azul.

O toque final é a tiara com peixes, representando a fauna marinha, destruída pela poluição.

Com três filhos, Jaci contou que também sofreu com as alterações de cheiro e cor da água fornecida à população. Segundo ela, a saúde dos foliões também fica em jogo: “Como pula carnaval sem água?”

A colega Gabrielle acredita que o protesto bem-humorado é válido e mostra que carnaval e protesto combinam.

“Nada mais justo do que ter uma voz e mostrar que nos preocupamos com a água”, explicou a vendedora.

Destaque nos blocos

Nos blocos, o tom de crítica é reafirmado. No Chame Gente, que desfilou na Avenida Prefeito Mendes de Morais, em São Conrado, um grupo de amigas chamou a atenção com a fantasia de água.

“No ano passado, a gente ainda valia alguma coisa. Esse ano, com geosmina, a gente não vale nada”, disse a foliona Carina.

A letra do samba do bloco Imprensa que eu Gamo, que desfilou no último fim de semana, também contava com uma referência aos problemas com a água ao dizer que o “povo vai tomando no Guandu”.

Rita Fernandes, presidente da Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro (Sebastiana), destaca que os protestos nos blocos são uma tradição do carnaval no Rio.

“É mais uma forma de chamar atenção para os problemas da cidade e do país. É a possibilidade de levar mensagens importantes de uma forma lúdica, mas apontando o que não está bom, fazendo críticas aos problemas que enfrentamos no nosso dia a dia. Carnaval sempre teve sátira política e de comportamentos, isso é histórico e faz parte da festa em si”, destacou Rita.

No bloco Xupa mas não baba, que desfila no próximo sábado (15), em Laranjeiras, o tema do samba é a crise da água, com versos críticos sobre a qualidade do que chega às torneiras.

“O Xupa foi no Tororó/ beber água e se deu mal/ a água estava cheia de coliforme fecal./ Tem dó de nós, governador/ água amarela e com cheiro de cocô”, diz a letra do samba.

De acordo com Fernando Lima, um dos autores do samba, o tema é popular e é uma forma de abordar algo que prejudica a população.

“É uma coisa que todo mundo está passando por essa situação e uma forma de fazer uma crítica, isso era para ter sido visto há muito tempo, mas está estourando agora”, destacou o compositor.

Fernando é autor de mais de 80 sambas-enredo e é autor dos sambas do bloco de carnaval há pelo menos 15 anos. Ele assina o samba sobre a crise da água como Guanabara, na companhia de Emílio Rios, que assina como Carioca, e Fernanda Maria, que assina como PM.

Água com gosto e cheiro

A crise na companhia começou na primeira semana do ano, quando moradores de vários pontos da Região Metropolitana reclamaram de alterações no gosto, cheiro e aparência da água.

A Cedae atribuiu as alterações a presença da geosmina, substância orgânica produzida por algas, perto da Estação de Tratamento de Guandu, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A companhia disse que a geosmina na água fornecida pela empresa não representa perigos à saúde e começou tratamento adicional com carvão ativado e argila. Ainda assim, as queixas em relação ao gosto continuaram.

No sábado, um último teste foi divulgado pela companhia, atestando que a quantidade de geosmina encontrada na produção da Cedae aumentou na comparação entre o dia 8 de janeiro para o dia 3 de fevereiro.

O último dado da crise na água foi a demissão do então diretor-presidente da Cedae, Hélio Cabral. Segundo o governo, a decisão foi tomada por Witzel na qualidade de representante do acionista controlador da Cedae, o estado do Rio. O governador indicou para sucedê-lo o engenheiro Renato Lima do Espírito Santo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

TV Prefeito
%d blogueiros gostam disto: