Com estrutura mínima e sem receita, Comitê Rio 2016 tenta quitar dívida de R$ 150 milhões

No auge da preparação para os Jogos do Brasil, o Comitê Organizador Rio 2016 tinha cerca de 6.000 empregados, um orçamento da ordem de R$ 8 bilhões e apoio irrestrito dos três níveis de governo e do principal órgão olímpico internacional para uma organização bem-sucedida. Passados dois anos do término da Olimpíada, o Co-Rio continua ativo, mas perdeu todo o resto: o dinheiro acabou, os funcionários saíram, e os antigos aliados fecharam as portas para qualquer auxílio.

Atualmente, a entidade ostenta uma dívida de ao menos R$ 150 milhões com fornecedores, clientes e ex-funcionários. É provável que o balanço financeiro de 2017, que ainda não foi divulgado publicamente e passa por uma perícia contábil, aponte um valor ainda maior. O maior débito é com a multinacional francesa GL Events, que forneceu estruturas temporárias. Segundo o advogado Gustavo Gregati, diretor jurídico da empresa, são R$ 52 milhões devidos.

A GL Events, que tem sede na cidade francesa de Lyon, trabalha regularmente com o COI (Comitê Olímpico Internacional) e nos Jogos Olímpicos há mais de 20 anos. Nos 14 contratos que fez com a Rio 2016, a empresa empregou 1.200 pessoas e forneceu, entre outras coisas, 110 mil metros quadrados de tenda. Dada a demora para receber o pagamento, entrou com ação contra o comitê organizador.

– Em julho de 2017, nós judicializamos [o comitê]. Nós passamos um ano negociando, indo ao COI, falando com representantes do Rio 2016. Eram feitas várias promessas, até que chegou a hora em que a gente foi obrigado a judicializar tudo – complementou.

O imbróglio não se restringe a valores vultosos e corporações. O Comitê Rio 2016 também deixou de pagar consumidores que compraram ingressos e os revenderam na plataforma online disponibilizada pela própria entidade. Até hoje, cerca de mil pessoas nunca receberam o reembolso. Um deles é o economista Ricardo Tavares, que ainda busca recuperar R$ 1.410 em ingressos para partidas de futebol que devolveu para os organizadores.

– É um valor significativo. Pediram o número da conta e o valor bancário para ser ressarcido, mas esse valor não entrava. Depois de um tempo, o telefone de contato do comitê não funcionava mais. Só havia um e-mail de contato, no qual não havia resposta – afirmou Tavares.

Nesse meio tempo, a sede do comitê deixou de ser um complexo temporário no bairro da Cidade Nova, na região central do Rio, e passou a ser uma sala em um edifício também no Centro, cujo proprietário é o COB (Comitê Olímpico do Brasil). A mudança de endereço alienou os consumidores que buscavam o reembolso.

– A gente foi atrás de informações e descobriu que é possível entrar no juizado de pequenas causas. Conseguimos só agora o endereço do comitê no Rio para ser intimado, porque se eu não tiver isso nem posso dar andamento ao processo. Então é bem complicado – comentou.

O economista conseguiu o novo endereço por meio de um grupo no Whatsapp formado por outras pessoas que não receberam o reembolso, no qual foi incluído. A administradora Thais Cardoso, que mora no Rio, é outra que tem sofrido para resgatar os R$ 420 aos quais tem direito. Ela entrou no tribunal de pequenas causas para tentar reaver o valor.

– O valor é pequeno, mas todo esse stress de dois anos não pode ser em vão. Houve uma primeira audiência na qual o Rio 2016 não compareceu. Depois, teve uma segunda, em que o comitê ofertou o valor do ingresso e mais R$ 500, e com isso a gente pediu a posição final do juiz – disse ela.

O poço não tem fundo. O Comitê Rio 2016 é réu em 332 ações trabalhistas que correm atualmente movidas por vários de seus antigos milhares de funcionários.

Antigos mesmo, porque hoje em dia a realidade é bem mais difícil. No conjunto onde o comitê está estabelecido, há apenas nove funcionários em atividade. Um dos contratados, advogado, cuida das ações trabalhistas. Outros dois analisam as ações dos ingressos e dos fornecedores. Também há profissionais de TI (tecnologia da informação) e uma secretária.

Na folha de pagamento, o mais novo reforço é Ricardo Trade, que assumiu em junho o cargo de diretor-executivo com a missão de tentar encerrar de vez as dívidas e a entidade, cujo estatuto reza que deve ser encerrada em 2023. Conhecido como Baka no meio olímpico, Trade foi o CEO da Copa do Mundo do Brasil, em 2014, e recentemente trabalhou com as confederações brasileiras de vôlei e basquete. Seu nome foi aprovado em assembleia com as confederações esportivas olímpicas nacionais, que são associadas ao Comitê Rio 2016.

Ele afirmou que o maior problema é que o comitê não tem mais fontes de receita. Já recebeu quase todas as verbas previstas pelos governos federal, estadual e municipal, que têm reiteradamente dito que não farão mais repasses – a verba de um convênio assinado com o município não foi totalmente liberada. O COI, que deu à entidade boa parte do orçamento de R$ 8 bilhões para a organização do megaevento, também rejeita dar mais dinheiro para as dívidas.

Segundo Trade, há um fundo de reserva para pagamento de salários dos funcionários, mas com capacidade para durar até outubro. Depois, não sabe como será. A estratégia do diretor-executivo é mostrar, principalmente ao COI, que questões de governança foram sanadas e agora o Comitê Rio 2016 está estruturado para finalizar de vez suas atividades. Se sensibilizar o COI, ele acredita, os outros entes podem mudar de conduta também.

– Vamos chamar todos à mesa para negociar e dizer “olha, nós temos um problema que é comum, não é só da Rio 2016”. É do governo, é da prefeitura, é do COI. A gente tem que construir um arcabouço conjunto, e nesse meio do caminho vou negociar – afirmou.

Além de Trade, os presidentes de outras três confederações também compõem um grupo de trabalho para tentar acertar o errático comitê: João Tomasini (canoagem), Helio Meirelles (pentatlo moderno) e Francisco Ferraz de Carvalho (badminton).

A interlocução com o todo-poderoso órgão internacional tem sido feita pelo ex-jogador de vôlei Bernard Rajzman, que é membro do COI e atualmente é vice-presidente do Comitê Rio 2016.

A presidência do comitê está a cargo de Edson Menezes, que assim como Rajzman faz parte de seu conselho de administração. Menezes assumiu o posto em outubro passado, depois que Carlos Arthur Nuzman renunciou à função por ter sido preso pela Polícia Federal em investigação sobre suposta compra de votos para o Rio sediar a Olimpíada – posteriormente, foi solto por habeas corpus, situação que se mantém. O escândalo que envolveu Nuzman, que chefiou a organização dos Jogos de 2016 desde a escolha da cidade, em 2009, intensificou o mal-estar com o COI e havia afastado qualquer chance de negociação.

Paulo Wanderley, que sucedeu a Nuzman no comando do COB, também não quis assumir o comitê, como rezava o estatuto. Ele fez uma manobra estatutária para se livrar da tarefa.

Menezes e Rajzman foram os únicos remanescentes do conselho de administração do comitê. A empresária Luiza Trajano, o empresário Manoel Felix Cintra Neto e José Antônio do Nascimento Brito, ex-presidente do conselho editorial do “Jornal do Brasil”, deixaram a entidade nos últimos meses. Em que pesem tantos fatos negativos, Trade afirmou que pretende dar um jeito de encerrar o comitê organizador em 2019 e deixar uma imagem mais positiva do evento.

– Acho que a gente pode recuperar a imagem dos Jogos do Rio e te falo: eles foram maravilhosos. Nós fizemos Jogos extraordinários – concluiu o executivo.

Falta saber quando eles vão, de fato, terminar.

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