Buscas seguem após 4 meses da tragédia da Vale em Brumadinho

“A dor destas famílias é a nossa dor também. A gente quer que estas pessoas finalizem um ciclo”, afirmou o capitão do Corpo de Bombeiros Leonard Farah, reforçando que a operação em Brumadinho só termina após a identificação de todas as vítimas do rompimento da barragem da Vale em Córrego do Feijão. Neste sábado (25), a tragédia completa quatro meses, e a maior operação de resgate do Brasil segue ininterrupta. De acordo com o último boletim, 242 mortos foram identificados e 28 pessoas continuam desaparecidas.

Capitão Farah é um dos 1.850 bombeiros militares de Minas Gerais e de outras partes do país já passaram, em sistema de rodízio, no resgate de Brumadinho. Com 15 anos de experiência, sendo nove no Batalhão de Emergências Ambientais e Respostas a Desastres, ele também atuou em Mariana, e, em março, fez parte do grupo dos militares mineiros que foram enviados à Moçambique.

De volta ao Brasil, o militar, que tem mestrado em engenharia geotécnica em desastres e especialização em Gerenciamento de Desastres, no Japão, agora se dedica a analisar os números e locais onde os corpos e segmentos foram encontrados para tentar otimizar as buscas tanto tempo depois do desastre.

A intenção de Farah é conseguir, com precisão, indicar onde possam estar os corpos das vítimas que estavam no topo da barragem quando ela cedeu. “O deslizamento tem dois movimentos. Um que é mais seco e faz com que as pessoas fiquem soterradas e fluidificado, que faz com que os corpos se comportem como boias. O da lama é mais fluido”, explicou. “Por esta lógica, quem estava em cima, deve ter ficado soterrado. As que estavam mais embaixo, ‘boiaram’, ficaram mais superficiais”, concluiu. Segundo capitão Farah, algumas destas vítimas já foram localizadas próximo à ITM.

No dia do rompimento da barragem em Córrego do Feijão, ele estava de férias, “barbudo, indo para o clube, com a esposa e os dois filhos”, quando recebeu uma ligação do comandante avisando sobre o desastre. Ele já sabia: o passeio em família terminava ali para dar lugar a uma operação sem prazo para ter fim.

Ao chegar em Brumadinho, Farah adotou a mesma tática usada em Mariana. Sobrevoou a região em busca de sobreviventes ou de locais que poderiam ainda ser atingidos pela lama para auxiliar no deslocamento dos moradores. “Conseguimos deslocar todo mundo de Paracatu de Baixo, em 2015, desta forma. Mas, em Brumadinho, quando chegamos, a lama já estava no Paraopeba. Não havia ninguém mais para retirar antes da passagem dos rejeitos”, lamentou.

A prioridade passou a ser buscas por sobreviventes. Capitão Farah conseguiu retirar um homem, que estava preso ao telhado de casa. O cachorro dele, que latia sem parar, chamou a atenção dos bombeiros. Segundo Farah, foram 192 pessoas resgatadas com vida naquele dia.

Deixar a família para trabalhar em um resgate faz parte da profissão, mas não é uma tarefa fácil. Capitão Farah tem um filho de 12 e outro de 6 anos. De janeiro a março, quando foi para Moçambique, ele precisou ficar em uma escala de sete dias de trabalho em Brumadinho e sete de folga. É a família que move o bombeiro a acreditar na sua missão.

“Carrego um peso muito grande de não ter encontrado uma das vítimas em Mariana. Quando aconteceu de novo, em Brumadinho, me perguntei ‘quantos nomes que terei que carregar deste acidente?”, afirmou. “Por isso, sempre bati na tecla de ir até o último, até onde tiver possibilidade”, concluiu.

‘Dever cumprido’

Naquela sexta-feira, dia 25 de março, a equipe do tenente Tiago Costa fazia uma reunião de rotina dentro do Batalhão de Emergências Ambientais e Respostas a Desastres, quando chegou a mensagem do rompimento da barragem de Córrego do Feijão, em Brumadinho. “Ninguém sabia direito a gravidade. Logo, já me coloquei de prontidão para deslocar para a região”, contou.

Ao chegar à barragem, viu o mar de lama que devastou a área administrativa da mineradora Vale e outras casas na região e percebeu a seriedade da situação que estava diante da equipe de resgate.

“A lama ainda estava descendo. Avisei a central para disponibilizar todas as aeronaves. Nos primeiros minutos, o resgate de vítimas com vida a pé é quase zero. Então, os helicópteros começaram a pousar no campo da igreja e demos início ao salvamento”, disse.

Aos 29 anos, tenente Tiago Costa é de uma família de militares. O pai e o irmão também são bombeiros. No Pelotão de Busca e Salvamento de Belo Horizonte, ele já soma dez anos. Atuou no desabamento do prédio no bairro Caiçara, na Região Noroeste de Belo Horizonte em 2011, no desabamento do Viaduto Guararapes, quando a capital sediava jogos da Copa do Mundo em 2014, no resgate após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, e, agora, em Brumadinho e Moçambique.

Até ir a Moçambique, em 29 de março, tenente Tiago foi a Brumadinho diversas vezes – intercalava sete dias de operação com sete dias de folga. Resgatou cerca de 80 corpos e apenas um sobrevivente. A vítima, segundo o militar, foi retirada entre a área chamada ITM e os vagões que ficaram retorcidos.

O tenente não teve mais contato com a vítima. “Até que um dia, o comandante que fez o sobrevoo naquele dia contou que recebeu uma ligação de um homem, que tínhamos salvado, tinha ligado para agradecer”, contou.

“É gratificante demais receber este tipo de notícia e ver que valeu a pena a exposição e o risco. Diante de uma situação destas, em que é mais comum ver óbito do que pessoas com vida, ter o agradecimento de quem sobreviveu, dá uma sensação de dever cumprido”.

Mas o resgate que mais marcou o militar em Brumadinho foi outro. Logo no segundo dia de operações, ele se encontrou com um homem sobre os escombros, que procurava pela esposa. Para garantir a segurança daquele homem, tenente Tiago prometeu que só sairia dali após encontrar a mulher.

No dia seguinte, os militares localizaram o carro da vítima, com a chave virada. O marido, então, contou que a esposa havia escutado o estrondo da barragem e avisou o caseiro e a empregada, que conseguiram sair com vida. Mas ela tinha voltado para buscar o cachorro de estimação da família. “Encontramos o corpo dela dois dias depois, abraçada ao animal”, afirmou o tenente.

Lidar com os familiares que aguardam as notícias de quem ainda está desaparecido é, para o tenente, uma das tarefas mais difíceis. “Por mais que a gente não esteja tirando uma pessoa viva, a gente está contribuindo para que seus parentes que ficaram consigam seguir em frente. Conviver com esta angústia é pesado demais”, declarou.

Resgate em família

O irmão mais novo do tenente Tiago Costa também é do Corpo de Bombeiros e atua na operação em Brumadinho desde o dia do rompimento da barragem. Aos 27 anos, tenente Lucas trabalha há nove na corporação e é um dos responsáveis pelos cães empenhados no resgate das vítimas. Esta é a primeira atuação dele em um grande desastre.

Naquela sexta-feira, dia 25 de janeiro, tenente Lucas e os militares responsáveis pelos cães se deslocaram assim que tiveram notícias da dimensão da tragédia. Com uma reserva de ração, já foram preparados para ficar muitos dias em operação.

Quando viu a lama, tenente Lucas teve a certeza da dimensão da tragédia. “Os bombeiros de Minas Gerais estão prontos para atuar diante deste tipo de situação. Sabíamos que estávamos indo e não voltaríamos tão cedo”, afirmou.

Nas primeiras horas, como ainda havia vítimas sendo resgatadas com vida, os militares do canil se juntaram aos demais militares nas buscas por sobreviventes. Os cães só foram utilizados a partir do segundo dia e, assim que começaram as buscas, encontraram, de imediato, três corpos. Ao longo da operação, eles garantiram a retirada de pelo menos 70% dos segmentos de corpos, segundo tenente Lucas.

De acordo com o militar, o cão possui cerca de 200 milhões de células olfativas, o que é 40 vezes mais que o ser humano. Além disso, o cão é ágil e consegue percorrer grandes áreas com facilidade, o que permitiu que o tempo resposta fosse mais eficiente para encontrar os corpos.

Assim como outros militares, tenente Lucas ficou dez dias direto na operação. “Nos três primeiros dias, não dormimos. Trabalhávamos durante o dia e, durante a noite e madrugada, preparávamos a operação para o dia seguinte, apontando locais onde teriam vítimas”, contou.

Quatro meses depois de iniciada a operação, tenente Lucas continua indo pelo menos uma semana por mês a Brumadinho. Segundo o militar, ainda estão sendo encontrados segmentos de vítimas e, por isso, ainda não existe prazo para que a operação seja encerrada.

“Por mais que a gente seja profissional, a gente se envolve um pouco com as histórias, com as famílias. A gente tenta planejar a operação a cada dia o melhor possível para tentar encontrar as pessoas que estão faltando”, disse.


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