Botafogo e Fluminense se unem para criar associação, e Mufarrej defende debate sobre direitos de transmissão

A relação de afinidade entre Botafogo e Fluminense criada nas últimas semanas, movida pela posição contrária ao retorno do Campeonato Carioca em meio à pandemia, terá continuidade. A dupla estuda a criação de uma associação, através de uma SPE (Sociedade de Propósito Específico), para discutir interesses em comum entre eles e outros clubes.

– Temos conversado sobre a criação de uma associação que permita os clubes se unirem em prol de interesses em comum, especialmente nos assuntos comerciais e de direitos. Fazemos questão de convidar outros clubes para se juntarem a nós nessa cruzada. Sem individualidades. Ninguém joga futebol sozinho – disse o presidente do Botafogo, Nelson Mufarrej, ao GloboEsporte.com.

O tema da associação veio à tona no último sábado, quando Bota e Flu lançaram um manifesto contra a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, mas ainda está na fase inicial. Um dos assuntos que Mufarrej acredita que precisa ser debatido é a Medida Provisória 984/2020, que interfere na venda dos direitos de transmissão do futebol brasileiro.

– Os direitos de transmissão, para muitos clubes, significam o grosso das receitas. O que incomoda é a forma como foi conduzida a questão, com açodamento, de forma individualizada. Não se trata de interesse individual. Futebol não se joga sozinho. É um tema para se envolver todos os clubes, não apenas um, ser discutido com cautela.

– Não vou entrar nem no mérito da constitucionalidade da Medida Provisória, que pressupõe ser usada em situações em que há caráter de urgência. Quando tomei conhecimento, logo ensejei discussões internas envolvendo o comercial, o marketing, o jurídico e a transição da S/A. Trouxe todos à baila para encaminhar uma posição institucional sobre o assunto – afirmou o presidente.

Antes, emissoras só podem transmitir partidas de futebol se tiverem a anuência de mandante e visitante. Na prática, elas precisam comprar ambos os direitos de transmissão. A MP 984 altera essa dinâmica. Sem que a concordância do visitante seja necessária, clubes podem vender seus jogos enquanto mandante livremente.Nelson Mufarrej, presidente do Botafogo — Foto: Julio Gracco/Botafogo

Veja mais declarações de Nelson Mufarrej:

Relação com a Ferj

“O que a Ferj fez com esse Campeonato Carioca de 2020 foi histórico”.

Tivemos até dificuldade de compilar tantos assuntos negativos em uma nota oficial que desenvolvemos em conjunto com o Fluminense. Seguiram à risca o manual de como desvalorizar um produto, de como desrespeitar filiados, de como não gerenciar uma crise. Foi o meu último Carioca como presidente, lamento esse desfecho. Não pela performance do time, que se sacrificou para entrar em campo com um tempo de treinamento reconhecido por médicos como incompatível, mas por essa celeuma toda que se desenvolveu em meio a um cenário de luto.

O Botafogo fez o certo ao seguir suas convicções, de defender seu posicionamento até o limite, mesmo com as represálias sofridas. O Carioca se encaminha para o fim com os tribunais esportivos trabalhando intensamente, com falta de isonomia entre os clubes, chuva de liminares, sem transmissão por TV aberta, com uma final ao lado de um hospital de campanha e sem perspectiva futura de como será a transmissão televisiva da próxima edição. Não poderia ser pior.

Relação com o Fluminense

Carlos Augusto Montenegro e eu nos aproximamos muito do Mário Bittencourt e do Fluminense. Nossos advogados e assessores de imprensa também se falaram muito nos últimos meses. Esse alinhamento de ideias, de visão de mundo, de posicionamento, aproximou muito os dois clubes, sem dúvida alguma. A nossa insatisfação com a condução da competição pela Ferj era tamanha que só entramos em campo quando houve a decisão de que a Globo transmitiria a partida, pois respeitamos contratos celebrados. Mas só de cogitarmos não entrar em campo você vê o tamanho da decepção que virou o Carioca. É lamentável. Mas a nossa boa relação com o Fluminense continua.

S/A

Estamos em uma fase de definições. Prefiro até não entrar em detalhes, pois é um momento mais sensível. É um processo extremamente técnico. Todos sabem da urgência em implementar, pelas dificuldades que o clube passa, mas é preciso ter um pouco de paciência, especialmente agora. Entendo a expectativa do torcedor, é um salto de gestão necessário e da qual eu tenho o mais pleno interesse em realizar. O clube está todo mobilizado para isso.

MP dos direitos de transmissão

Acredito que um caminho interessante seja a formação de blocos, associações ou ligas, como queiram chamar, para negociação coletiva. Anos atrás, a Espanha começou a corrigir uma distorção histórica, que gerou a chamada “espanholização”, reduzindo o abismo financeiro entre Real Madrid, Barcelona e os demais clubes. É interessante o governo brasileiro entrar para regulamentar essa questão, como o governo espanhol fez na La Liga. Isso valoriza o produto, torna mais competitivo e equilibrado. Basta ouvir todas as partes.

Os clubes têm muito a dialogar sobre isso. O caminho ideal talvez seja se aproximar ao modelo da Premier League. Lá na Inglaterra o coeficiente de distância do recebimento de direitos televisivos entre o que ganha mais e o que ganha menos é razoável. Não há dúvidas do grande sucesso desse produto.

Vejo o streaming com muita força e o crescimento de produção de conteúdo próprio pelos clubes está em um caminho irreversível. A BotafogoTV tem crescido bastante, a nossa Comunicação tem se desdobrado para entregar resultados, mesmo com as dificuldades conhecidas. O departamento comercial e de marketing trata a BotafogoTV como um importante ativo do clube.

Li uma pesquisa recente sobre os novos hábitos da população, em especial dos mais jovens, que têm parado de assistir TV. Mas os impactos de uma transmissão ao vivo de um evento esportivo na TV aberta ainda é altíssimo e impactante.

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